Este bote não é apenas uma embarcação — é uma expressão viva da nossa história, do nosso saber-fazer e da profunda ligação ao mar. Cada tábua e cada detalhe refletem as pessoas que o construíram, o tripularam e nele confiaram as suas vidas. É uma obra nascida da necessidade, criada por uma comunidade que tinha pouco, mas deu tudo. Moldado para a velocidade, o silêncio e a resistência, foi concebido para enfrentar as águas exigentes do Atlântico. Mais do que um bote, tornou-se um símbolo de resiliência, engenho e esperança para gerações que encontraram no mar o seu sustento.
Mas dessa luta nasceu algo notável. O bote baleeiro tornou-se um símbolo de conhecimento coletivo, identidade e resiliência. As suas linhas foram aperfeiçoadas ao longo de gerações, através de tentativa e erro, e a sua condução refinada pelo ritmo das remadas e pela sabedoria das velas. Esse legado continua vivo — o bote ainda se move com a mesma urgência e elegância de outrora, transportando o espírito das pessoas cuja visão o construiu e coragem o navegou, inspirando gerações presentes e futuras a honrar, preservar e dar continuidade a esta história.
Filipe Fernandes tinha apenas 15 anos quando subiu pela primeira vez a bordo de um bote tradicional açoriano, e, desde esse momento, o mar tornou-se tanto a sua paixão como o seu caminho. Natural da ilha do Pico, Filipe passou mais de duas décadas a dominar a arte de velejar e remar estas embarcações históricas — não apenas como tripulante experiente, mas também como capitão campeão e treinador dedicado.
Competidor ao longo de toda a vida, Filipe conquistou reconhecimento nos Açores e além. Liderou a sua tripulação à conquista de 5 títulos de campeonatos de vela e 6 campeonatos de remo no Pico, alcançando ainda vitórias duplas — tanto no remo como na vela — na XI Regata Internacional Açoriana (2022) e na XII Regata Internacional em New Bedford (2023). Desde 2008, domina também as exigentes provas de maestria, vencendo o evento 14 vezes consecutivas.
Mas o maior orgulho de Filipe vai para além dos troféus. Está profundamente comprometido com o ensino, a orientação e a capacitação de outros, especialmente de jovens que encontram no mar sentido e confiança. Para Filipe, cada regata é uma oportunidade de transmitir não apenas competências, mas também resiliência, trabalho em equipa e um sentimento de pertença.
Ao longo dos anos, Filipe tornou-se também um embaixador internacional dos botes baleeiros açorianos, representando com orgulho este património marítimo único em importantes eventos de vela mundiais — incluindo a paragem da Volvo Ocean Race em Lisboa, em 2017, e a Foiling Week em Itália, em 2024, onde navegou num bote perante um público global. Quer guie a sua tripulação rumo à vitória, quer apresente os iniciantes ao ritmo das remadas e das velas, Filipe mantém vivo o legado dos botes baleeiros açorianos — garantindo que o seu espírito perdure nas mãos e nos corações de uma nova geração.
Construído em 1929, o «Nossa Senhora de Fátima» é um baleeiro açoriano oficialmente classificado — reconhecido como parte do património marítimo da região e protegido pelo seu valor histórico e cultural. Após décadas de serviço em Lajes do Pico, foi abandonado aos elementos por volta da década de 1980. Foi o icónico baleeiro Francisco Machado, amigo e mentor de Filipe, quem eventualmente o resgatou da degradação, oferecendo-lhe abrigo e dignidade tranquila na sua “reforma”.
Antes de falecer, Francisco confiou o «Nossa Senhora de Fátima» a Filipe Fernandes — que não resistiu a devolver-lhe a vida. A restauração tornou-se uma homenagem a um amigo, a um mentor e ao legado que ambos estimavam. Filipe uniu esforços com João Tavares, provavelmente o construtor de botes baleeiros açorianos mais experiente, para reconstruir o casco com precisão e respeito pela tradição. Cada detalhe — desde pinos a chapes — foi elaborado pelo mestre artesão Osvaldo Inácio, utilizando autêntica barbatana de baleia. As velas foram confeccionadas por Nauza Azevedo, neta de João Baptista Medina. A dedicação destes artesãos tornou o «Nossa Senhora de Fátima» não apenas navegável, mas perfeita.
Todo este trabalho foi realizado em Lajes do Pico, coração da cultura dos botes baleeiros açorianos, onde tradição, artesanato e comunidade se unem para manter este património vivo.
Hoje, ela navega novamente — não para caçar baleias, mas para transmitir a alma do bote baleeiro açoriano, uma embarcação viva que liga gerações através do vento, da madeira e da memória.